a escrita como uma faca, vol. 4
Considerações sobre a 4.ª semana de leitura de Fevereiro: ‘A Escrita Como Uma Faca’, de Annie Ernaux
Obrigada por fazeres parte do marginalia, o clube de leitura da newsletter Canto da Sereia, dedicado a livros que interrogam o acto de ler, a literatura e o ofício da escrita.
Como combinado, lemos os ensaios 19 a 21 e o posfácio (pp. 120-144) entre os dias 22 e 28 de Fevereiro. No domingo, 1 de Março, começamos a ler Devoção, de Patti Smith – a ideia é terminarmos a leitura a 31. Mas antes, tal como estabeleci previamente, venho partilhar convosco um breve resumo e recomendações adicionais de leitura.
Mas como nascem as ideias para os seus livros? É uma pergunta à qual Annie Ernaux admite não saber responder com exactidão. “Não sei se a palavra ideia é a «conveniente»”, diz. “É algo mais como um sentimento, um desejo, que se forma e que pode ficar latente durante muito tempo” (p. 120), acrescenta a escritora, que assegura não escrever “sobre um tema”, mas antes a partir de “uma nebulosa”.
A sua prática de escrita relaciona-se, antes de mais, com “uma necessidade de desdobrar coisas reprimidas”. Ao início, tem apenas “uma espécie de via, uma direcção”, e nem sempre consegue segui-la sem interrupções: “parece-me que começo sempre por recalcar o meu desejo, daí as paragens, as suspensões depois das primeiras páginas” (p. 121).
Tendo como matéria essencial da sua escrita o mundo que a rodeia, e a sua própria vida em particular, Ernaux vai respondendo a sucessivos “chamamentos”, alternando entre o abandono de certos fragmentos e o regresso insistente a outros, por vezes apenas muitos anos depois. O seu percurso não é linear nem previamente estruturado: os textos acumulam-se, suspendem-se, transformam-se.
Na verdade, só quando compreende plenamente o que pretende fazer com o que foi escrevendo é que começa a interrogar a questão da forma, ponderando inclusive as “técnicas possíveis da ficção”. Até esse momento, a escrita é sobretudo exploração e busca. Paralelamente, vai registando as suas hesitações e interrogações num “diário de «entre escritas»” (p. 124), espaço de reflexão onde acompanha e problematiza o próprio processo criativo.
“Os meus manuscritos assemelham-se – e cada vez mais – a um patchwork” (p. 127), confessa a escritora, descrevendo um processo de escrita feito de fragmentos justapostos, sobrepostos e constantemente retrabalhados. Apesar de avançar lentamente, também nunca deixa de “acrescentar, reintroduzir coisas” (p. 128), num movimento contínuo de expansão.
Só na fase final é que intervém de forma mais decisiva, suprimindo “bastante” do que acumulou, o que, em retrospectiva, nem sempre consegue justificar de forma racional. Pouco importa: “o livro é considerado como um todo, como um organismo autónomo, fora de mim, com o qual, todavia, faço corpo”.
Por outro lado, a autora insiste na “ideia de não poder viver sem escrever”, entendendo a escrita como “um modo de existir” e uma forma de «realização de si» (p. 131). Mais do que uma actividade, trata-se de uma necessidade vital, a tal ponto que os períodos em que não escreve são sentidos como “uma falta”, quase como uma privação que compromete o seu próprio equilíbrio.
“Se tivesse uma definição para a escrita, seria esta: descobrir, ao escrever, o que é impossível descobrir de outro modo qualquer”, escreve Annie Ernaux. “Descobrir qualquer coisa que antes da escrita não estava lá. É esse o prazer – e o assombro – da escrita, não saber o que ela faz acontecer, advir” (p. 133), resume a escritora, antes de admitir que escreve sempre com a mesma intenção: o “desvendamento da realidade” (p. 134). E, neste sentido, não distingue o íntimo do social.
“O íntimo é ainda e sempre social, porque um meu puro, onde os outros, as leis, a história, não estejam presentes, é inconcebível. Quando escrevo, tudo é coisa, matéria à minha frente,”, explica, para de seguida acrescentar que “tudo o que arrumamos no íntimo, está a li, nuamente, mas a remeter para a lei de então, para os discursos, para a sociedade em geral. Existirá um íntimo a partir do momento em que o leitor, a leitora têm a sensação de estarem a ler-se a si próprias num texto?” (p. 135-136).
Já no posfácio, onde procura reflectir sobre a entrevista feita por Jeannet e as suas próprias respostas, Ernaux admite que certas questões abordadas “tendem a tornar-se extemporâneas”, uma vez que a sociedade e a paisagem literária não são as mesmas de então, mas reforça a importância da memória como ferramenta de trabalho. “Não a memória oficial ou preservada nos arquivos, mas aquela que cada um constrói simplesmente vivendo, atravessados que somos pelas coisas e ideias, pelos acontecimentos que constituem o ar dos tempos” (p. 142).
Afinal, como faz questão de reforçar, “escrever não é uma actividade alheia ao mundo social e político” (p. 144). Por isso mesmo, sustenta que “a primeira questão a formular, quando se escreve, é a de saber quais os meios para uma tomada de consciência crítica sobre a escalada dos perigos”. Deste modo, a escrita é entendida não como um exercício neutro ou meramente estético, mas como uma prática implicada e eticamente comprometida, capaz de reflectir sobre o passado, interrogar o presente e identificar as ameaças que se intensificam no espaço público, transformando o texto num espaço de vigilância, questionamento e resistência.
DEBATE NA COMUNIDADE
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“Se a Ferrante estragou tudo com o último capítulo, desta vez o fim foi um dos meus favoritos. Achei brilhante esta ideia da intimidade como social – que é, claro que é. E depois disso a dádiva da sua vida íntima à sociologia, como quem dá o corpo à ciência, mas na versão literatura, em vez de cadáver.” – Rita Dantas
LEITURAS EXTRA
Why I Write, de George Orwell (The Orwell Foundation);
Édouard Louis: ‘All my writing is political – and all my life is, too’, por Andrew Hussey (The Guardian);
“‘Writing is like wielding a knife.’ said Annie Ernaux. The Nobel Committee agreed”, por Françoise Girard (Feminism Makes Us Smarter).
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