
Há sensivelmente um mês descobrimos que, afinal, reunimos as condições para nos candidatarmos ao financiamento a 100% para o Crédito à Habitação Jovem, e começámos a ver casas, mas tem sido muito cansativo e frustrante. O nosso tecto orçamental é baixo e não é propriamente fácil encontrar T2 ou T3 no rés-do-chão ou em prédios com elevador — com mais de 70 m2 e perto de transportes públicos — que não custem um rim ou dois.
As primeiras casas que vimos em Lisboa — no Lumiar, em Campolide e em Marvila — estão em zonas que metem medo ao susto. Eu gosto de pensar que não sou uma pessoa preconceituosa, mas se há coisas com as quais não consigo é lidar com lixeiras a céu aberto, bêbedos a arrastar aquecedores pela estrada e edifícios com ar que vão desabar a qualquer momento. É demais para mim. Só de pensar em educar a Teresa num ambiente do género fico com suores frios.
Até há pouco tempo só tínhamos visto uma casa que nos falou ao coração. Um T3 com sótão na Damaia, a 12 minutos a pé das Portas de Benfica. Nem sequer é uma casa grande, mas está muito bem cuidada e tem uma escola mesmo em frente. Infelizmente, perdemo-la: oferecemos 230 mil e ganhou uma oferta de 235 mil com 10% de entrada. Mesmo que oferecêssemos mais, não temos dinheiro para adiantar. Razão porque, como é óbvio, chorei baba e ranho quando a nossa consultora imobiliária1 nos deu a triste notícia.
Continuámos à procura, claro. Entretanto, vimos uma casa em Sintra e alargámos a pesquisa também para a Margem Sul, onde visitámos três casas de que gostámos (duas no Seixal e uma no Barreiro). Fizemos propostas, mas nenhuma foi aceite. Se souberem de casas à venda até 250 mil, avisem. Toda a ajuda é precisa. Não é que haja urgência, uma vez que ninguém nos vai pôr na rua, mas eu gostava de voltar a ter esperança antes de regressar ao trabalho, em Setembro. Sobretudo agora que se confirma que o mundo é mesmo um caixote do lixo a arder e nem Portugal se safa do crescimento da extrema-direita.
18 de Maio ficou oficialmente registado como um dos piores dias da minha vida. Não consigo sequer conceber o que aconteceu. Parece-me tudo surreal. Desde o empate do PS com o Chega (que entretanto se confirma como a nova segunda grande força política) à perda de mandatos do Bloco de Esquerda2. Se não fosse pela eleição de seis deputados do Livre, mais dois do que no mandato anterior, não havia nada para celebrar. Mas não adianta chorar sobre o leite derramado. A luta tem de se sobrepor ao luto.
Foi a nossa terceira ida às urnas em apenas três anos. Não há dúvidas de que a instabilidade política persiste e a esquerda precisa de se reestruturar. Os partidos deviam, desde logo, construir pontes para o diálogo e a cooperação, entre si e com a sociedade civil. É preciso continuar a priorizar temas como a habitação, a saúde, a educação e a transição ecológica, mas sem nunca esquecer as preocupações quotidianas da população.
(Precisamos de ir buscar votos a sectores do eleitorado mais moderado ou desencantado — aqueles que oscilam entre o centro-direita e o centro-esquerda, ou que votam com base em preocupações concretas e não por fidelidade ideológica. A grande questão é como. Diria que é preciso desde logo:
Apresentar propostas claras e exequíveis para resolver problemas concretos;
Ser mais pedagógico mas menos condescendente na comunicação política;
Reapropriar o discurso do trabalho digno e da mobilidade social;
Mostrar que igualdade de oportunidades não é um capricho ideológico, mas um investimento económico e social inteligente;
Falar a linguagem das pessoas, sem jargões ideológicos ou arrogância intelectual;
Estar presente onde a extrema-direita tem crescido — antes que seja tarde demais.)
Grande parênteses aparte, o meu cérebro está um autêntico marasmo. Este mês não avancei absolutamente nada na especialização de SEO da Universidade da Califórnia, que estou a fazer na Coursera. Por outro lado, apesar de ter abandonado a leitura de Spring, de Ali Smith, terminei:
Arena Two, de Morgan Rice. Neste segundo volume da trilogia, Brooke é recapturada e levada para a Arena Dois, onde é forçada a lutar até à morte, para sobreviver e continuar a proteger a sua irmã.
Comprei no Kobo, porque li o primeiro super rápido e estava curiosa, mas não recomendo este. Mau que dói. Só vou ler o terceiro porque não quero atirar a toalha ao chão.
A Maldição de Hill House, de Shirley Jackson. Um clássico do terror psicológico, que acompanha o Dr. John Montague, um investigador do oculto que convida três pessoas para passarem o verão na enigmática Hill House.
Requisitei, em português, através do BiblioLED. Eu amei a série da Netflix, mas confesso que o livro me desiludiu. Não sei se foi porque a trama é ligeiramente diferente, se por causa da tradução. A verdade é que achei a história mais tépida do que tensa.
Deriva, de Madalena Sá Fernandes. Uma colecção de crónicas sobre assuntos diversos, da aprendizagem lenta da solidão ao ódio às festas de casamento que mais parecem carnavais.
Requisitei através do BiblioLED. Já conhecia a escrita da Madalena de Leme, a sua auto-ficção de estreia, que na altura em que saiu devorei num dia à beira da piscina, mas achei este livro consideravelmente mais fraco. Apesar de ter gostado muito de uma ou outra crónica, no geral ficou aquém.
You Belong Here, de Sara Phoebe Miller e Morgan Beem. Um romance gráfico jovem adulto sobre mágoa, empatia e a procura de um lugar no mundo.
Comprei no Kobo e gostei mesmo muito. Escrevi crítica em português no volume 3 da minha rubrica mensal Lado B(D); e em inglês, numa versão mais alargada, na minha newsletter literária Binge-Read.
O Vício dos Livros, de Afonso Cruz. Um livro sobre livros, que reúne relatos históricos, curiosidades literárias, reflexões e memórias pessoais.
Requisitei no BiblioLED, mas tencino comprar, ainda não sei se impresso ou digital, juntamente com o novo livro desta série, O Vício dos Livros II. É daqueles livros para revisitar vezes sem conta. Ainda agora o terminei e já tenho vontade de o ler de novo.
Ainda não subscrevi o Kobo+ da LeYa, mas acho mesmo que não vai passar do próximo mês. Já andei a investigar o catálogo dos livros disponíveis e vale de facto a pena para quem é capaz de ler um mínimo de dois livros por mês. A subscrição custa entre 6,99€ e 8,99€, dependendo da modalidade escolhida, e os livros por norma custam bem mais que isso. O único senão para mim é que os livros disponíveis em inglês são consideravelmente menos do que aqueles em português e, quando há tradução para português, a versão em inglês não está disponível no Kobo (é o caso da trilogia The Poppy War/A Guerra das Papoilas, da R. F. Kuang, editada em Portugal pela Desrotina). Eu percebo e defendo a ideia de valorizar a nossa língua, mas há determinados géneros que eu preferia ler no original/em inglês, nomeadamente fantasias (por norma as traduções não são incríveis) e romcoms com cenas picantes (ler smut em português é mil vezes mais cringe).
Entretanto, comecei a ler Arena Three de Morgan Rice (chamem-me masoquista) e dois eARCs3: The Proposal Project de Donna Marchetti (a mesma autora de Hate Mail) e Among the Burning Flowers de Samantha Shannon.
De resto, a Teresa já fez três meses e eu estou super entusiasmada com este mês de Junho, durante o qual a vou levar pela primeira vez à Feira do Livro de Lisboa.
E tu, como foi o teu mês de Maio e o que mais anseias fazer/ler/ver/provar em Junho? Se quiseres, partilha comigo, nos comentários.
canto da sereia #22
I
Nem acredito que faltam dias para a Feira do Livro de Lisboa. Escrevi um guia para aproveitar ao máximo um dos maiores eventos da cidade.
II
Lancei a rubrica Shelfie na minha newsletter literária em inglês, Binge-Read. A primeira entrevistada foi a Rafaela Silva da Shot de Cafeína, e este mês sai a segunda edição, com o João Azevedo. Estou mesmo muito entusiasmada com este projecto.
III
Subscrevi a assinatura paga de A Reading Life, de Petya K. Grady, por menos de 5€/mês; e a de Closely Reading, de Haley Larsen, por menos de 15€/ano4. Se são leitores ávidos, ou gostavam de ser, recomendo imenso ambas.
Breviário do mês
Um livro: O Vício dos Livros, de Afonso Cruz, que requisitei através do BiblioLED e adorei.
Uma série: White Lotus, na Max. Estou a ver devagarinho (sensivelmente um episódio por noite), mas a gostar muito.
Uma música: “Puras Donzelas”, o último single de Cláudia Pascoal.
Um local: Fui tomar café com a Carolayne ao How About Coffee (Alameda Dom Afonso Henriques 41B, Lisboa) e, apesar de parecer um espaço modesto, esconde um pátio exterior nas traseiras. Ficámos à sombra debaixo de uma nespereira e foi muito agradável. Mas, atenção, não recomendo o expresso da casa: peçam outra coisa qualquer para beber, a sério.
Uma comida: Depois de meses de míngua, voltei a comer ramen do Panda Cantina, porque fomos comprar um presente ao Vasco da Gama e descobrimos que há um restaurante da marca no terraço (Piso 3) do centro comercial.
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Anabela Matos da Remax. Recomendo muito: tem sido incansável.
Estas eleições não votei no Bloco, mas votei nas anteriores e sou assumida simpatizante da Mariana Mortágua. Estou genuinamente triste. O partido passou de ter cinco deputados para apenas um. É uma queda brutal.
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Maio foi o mês mais intenso do ano até agora. Mas foi bom. Clientes novos. Superei e minha prova de bicicleta. E lá conseguimos comprar casa, mas demorou mais de 1 ano de sofrimento.
sobre ter que vender um rim para comprar casa já viste The Architect?