Shelfie: Sofia Costa Lima
Sofia Costa Lima, gestora de marketing, blogger e aspirante a escritora. Esta é a sua s(h)elfie.
Olá1,
Esta é a Shelfie2, a única secção desta newsletter onde temos autorização para julgar as pessoas pelas suas estantes. Em cada edição, ume nove convidade revela es sues rituais de leitura, preferências e aversões, as obras que lhe reprogramaram o cérebro e até e sue próprio processo de escrita. Bónus para mesas de cabeceira caóticas e pilhas de livros por ler que desafiam a gravidade.
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O PRIMEIRO OLHAR
Estás a fazer scroll no Instagram quando te cruzas com a Sofia. Tem 30 anos, vive no Porto (também conhecida como a cidade mais bonita do mundo; sim, sim, o melhor é não discordares) e trabalha como gestora de marketing enquanto tenta vingar como escritora. Na vida real, fora do ecrã portanto, quando não está perdida num livro ou a escrever o seu, é provável que a encontres a passear o seu cão, à procura do batom vermelho perfeito ou a cantar a plenos pulmões enquanto conduz à noite pela Invicta. Adora tiramisu, nunca recusa uma francesinha e considera a leitura ao pequeno-almoço um ritual sagrado. Atenção: também tem opiniões fortes sobre pontuação e pastelaria.
→ Encontra-a no Substack, Instagram, blogue ou site profissional.
O PRIMEIRO ENCONTRO
As velas estão acesas, a bebida servida — é hora de nos sentarmos à mesa. É aqui que conhecemos o teu “eu leitor”: o primeiro livro por que te apaixonaste, os teus hábitos de leitura, os géneros que não suportas e, claro, as histórias que não consegues esquecer. Nada de conversa fiada, queremos as coisas boas.
Que livro te fez leitora? (Aquele que te viciou — todos temos um.)
Tenho quase a certeza de que tudo começou com a coleção Uma Aventura, da Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Não tínhamos muito dinheiro quando eu era pequena, por isso comecei a ler estes livros na Biblioteca Itinerante da Gulbenkian3, e depois a minha mãe comprava alguns quando podia. Acho mesmo que foi o n.º 13, a aventura no Porto, que me fez querer vir viver para esta cidade.
Os teus gostos literários mudaram com o tempo? (Como?)
Siiim! Quer dizer, para começar, li Nicholas Sparks, Margarida Rebelo Pinto e até As Cinquenta Sombras de Grey [o bestseller erótico de E. L. James] no secundário. Não me arrependo, porque acho que todos os livros constroem a pessoa que somos, mas hoje em dia prefiro ficção literária, dramas familiares e livros com enredos menos previsíveis. Ainda gosto de uma comédia romântica de vez em quando, mas antigamente não lia poesia, clássicos, nem alguma da ficção que leio hoje.
Quais os cinco livros que moldaram a tua vida, voz ou visão do mundo? (Favoritos de infância, companheiros de desilusões, releituras que te assombram — vale tudo.)
A Lua de Joana, de Maria Teresa Maia Gonzalez
O livro da adolescência que mais me marcou.Crónica de uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez
O primeiro que li dele — tornou-se um dos meus favoritos.Tudo o Que Sei Sobre o Amor, de Dolly Alderton
Influenciou imenso a forma como escrevo sobre amor, amizade e a vida.Um Mundo Belo, Onde Estás, de Sally Rooney
A minha autora favorita e o meu livro preferido. Identifico-me tanto!Apesar do Sangue, de Rita da Nova
Ia falar do primeiro livro dela, que tem uma história com a qual me relaciono muito, mas a escrita da Rita evoluiu tanto que quero mesmo que toda a gente leia este último.
Cenário ideal para ler? (Local, luz, bebida, ambiente — descreve tudo.)
O Outono e o Inverno pedem mesmo leitura ao pé da lareira, algo que romantizo bastante quando estou em casa da minha mãe. Mas nos dias de sol, adoro ler num banco de jardim, com auscultadores e a ignorar o mundo.
Tens algum ritual de leitura ou hábito estranho? (Tens de acabar o capítulo antes de fechar o livro?)
Leio sempre ao pequeno-almoço, mesmo que sejam só 5 ou 10 minutos. Acho que é o único hábito que tenho e procuro manter.
Que livro recomendas a toda a gente? (Pensa nisto como a tua oportunidade para evangelizares alguém, outra vez.)
Crónica de uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez.
A sério, como é que se pode ler isto e não querer dar uma chapada a toda a gente por não avisarem o Santiago Nasar de que ia ser morto?
Fun fact: emprestei-o tantas vezes que já é a segunda vez que não mo devolvem. Acho que preciso de comprar uma terceira cópia…
Como tratas os teus livros — com reverência ou sem piedade? (Tomas notas? Dobras os cantos? Partes as lombadas ou manténs tudo imaculado?)
Normalmente sublinho a lápis e uso post-its. Não me importo muito de partir a lombada, embora tente evitar.
Ebooks, audiolivros, livros de bolso, edições de capa dura — tens um formato preferido? (Ou é-te indiferente?)
Experimentei audiolivros pela primeira vez este ano, mas sou fã de ebooks e livros de bolso. Capa dura só em edições especiais ou quando não há alternativa.
Há algum género ou tipo de livro que evites — e porquê? (Sem julgamentos. Quer dizer, talvez só um bocadinho.)
Ficção científica, fantasia e terror. Os dois primeiros até tento ler de vez em quando, porque sei que há livros incríveis dentro desses géneros, mas não são mesmo a minha praia. Terror não gosto mesmo, raramente escolho.
O que estás a ler neste momento, e como está a correr? (Queremos a verdade. Um DNF também está a valer.)
Estou a meio de Filho da Mãe, do Hugo Gonçalves, que é um livro incrível. Muito emocional e difícil de ler, mas tão honesto. Já chorei algumas vezes. Foi-me emprestado por uma amiga, mas acho que vou comprar um exemplar para mim.
AS MENSAGENS A MEIO DA NOITE
Não interessa se escreves a tempo inteiro ou és poeta de ocasião, este é o teu momento. O que estás a escrever, o que te assombra e que citação te ajuda a sobreviver ao próximo capítulo?
Também escreves? (Romance? Fanfic? Diários? Conta tudo.)
Escrever faz parte da minha vida. Tenho um blogue, uma newsletter e costumo escrever alguma ficção.
A leitura moldou a tua escrita, ou foi ao contrário? (Como se dão a tua leitora e a tua escritora interiores?)
Siiim! Acho que se moldam mutuamente.
Ler influencia muito a forma como escrevemos, mas também acredito que o que escreves e como escreves influencia aquilo que queres ler e o que procuras num livro.
A tua escrita não evolui se leres sempre o mesmo tipo de livros. E, se não procurares livros diferentes, não vais saber que tipo de histórias estão a ser contadas — e como.
Qual é o melhor conselho de escrita que já recebeste? (Uma citação, uma regra de ouro.)
Não sei quem disse, mas “não se pode editar uma página em branco” é algo que li uma vez e ficou comigo. Se estás bloqueado e não sabes como começar, tudo bem — escreve frases aleatórias, escreve mal, mas escreve. Depois edita. Se não escreveres nada, não há nada para trabalhar. Escreve qualquer coisa. Apagas depois, mas ao menos tentaste.
Em que estás a trabalhar agora — ou qual foi o primeiro manuscrito que terminaste? (Queremos saber o que tens na gaveta, ou no ecrã. Fala-nos do processo.)
Estou a reescrever um manuscrito que terminei no ano passado. Não sei o que vai acontecer com ele. Publiquei dois livros há dez anos, com uma editora vanity4, e decidi retirá-los do mercado porque não eram suficientemente bons. Desde então, ainda não consegui voltar a publicar, embora tenha outro livro escrito. Mas isso já dava outra conversa. Neste momento, o foco é terminar este da melhor forma que sei.
A GRANDE REVELAÇÃO
Chegou a hora por que ansiámos: prateleiras desarrumadas, torres à beira do colapso, cantinhos de leitura amorosamente organizados (ou nem por isso). Já nos confessaste os teus hábitos, agora queremos ver os bastidores. Mostra-nos as lombadas partidas, as pilhas que desafiam a física e aquela cadeira que prometes arrumar há semanas. A tua estante. A tua história. O teu retrato final.



[Clica nas fotografias para as veres em todo o seu esplendor.]
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Aviso à navegação: Nesta secção, sempre que me refiro a um conjunto de pessoas de pronome desconhecido ou que usam diferentes pronomes, bem como a pessoas que usam pronomes neutros, uso linguagem neutra, nomeadamente o Sistema Elu, como proposto pelo QueerIST, que criou este guia prático para um português mais inclusivo.
Um trocadilho com “selfie” (auto-retrato) e “shelf” (estante). A ideia nasceu em inglês, na minha newsletter literária, Binge-Read.
A rede de bibliotecas itinerantes da Gulbenkian existiu de 1958 a 2002. O objectivo era promover a leitura junto das camadas da população portuguesa com menor acesso à educação e à cultura.
Uma editora vanity obtém lucros sobretudo através da compra directa aos autores dos livros que edita e vende. A Sofia partilha a sua experiência neste post, onde revela também o que agora faria diferente.





Olha eu! 😁
Mais uma vez, muito obrigada pelo convite, querida Raquel!
ai, alguém que também tenha começado as suas leituras com a biblioteca itinerante da Gulbenkian! somos duas :') nisso, mas também no amor por "Uma Aventura", Dolly Alderton (salvou-me do maior reading slump da minha vida) e a paixão incondicional pelo nosso Porto!