devoção, vol. 1
Considerações sobre a 1.ª semana de leitura de Março: ‘Devoção’, de Patti Smith
Obrigada por fazeres parte do marginalia, o clube de leitura da newsletter Canto da Sereia, dedicado a livros que interrogam o acto de ler, a literatura e o ofício da escrita.
Como combinado, lemos a primeira parte, “Como funciona a mente” (How the Mind Works, na versão original), entre os dias 1 e 7 de Março. Este domingo, 8, começamos a leitura da segunda parte, “Devoção” (Devotion, na versão original). Como estabeleci previamente, venho partilhar convosco um breve resumo e recomendações adicionais de leitura.
Depois de dois meses a organizar este clube de leitura, tem sido curioso perceber o que têm em comum as leituras que temos escolhido em conjunto. É a terceira escritora mulher que lemos1 – tanto Elena Ferrante como Annie Ernaux abordam, nos seus respectivos livros, a importância de inscrever a mulher e a sua experiência real, a experiência real feminina, na literatura. Ambas se assumem pela subversão das visões dominantes do mundo e, cada uma à sua maneira, faz da escrita uma arma política.
Do que sabemos de Patti Smith, o activismo é também parte essencial da sua persona. Tem sido activa na crítica a Donald Trump e à ascensão do nacionalismo e defende causas como a justiça ambiental e os direitos humanos. Esta sensibilidade não é nova, muito pelo contrário. O seu álbum de estreia, Horses (1976), foi gravado “para criar espaço para as pessoas que queriam fazer coisas diferentes, incomuns, pessoas jovens que eram marginalizadas”, como disse em 2024, numa entrevista para o jornal Expresso.
Neste livro, não sei se nos fala desse seu sentido de missão, da crença de estar cá para algo maior, mas Devoção parece-me, desde já, muito diferente das propostas de Ferrante e Ernaux. Não é propriamente uma colecção de ensaios (como As Margens e a Escrita) nem segue uma lógica de pergunta/resposta (como em A Escrita Como Uma Faca). E, embora comece também por tentar explicar o seu processo de escrita e as razões que o motivam, a sua abordagem é bastante mais literária – Ferrante é mais académica, Ernaux mais directa e acessível.
Em “How the Mind Works”, Smith convida-nos a acompanhá-la no verdadeiro sentido da palavra: abrindo-nos a porta para o seu dia-a-dia, por um lado, e para o seu pensamento, tal como sugere no título, por outro. Confessa-nos inclusive o seu bloqueio – “I lament not writing”, “A writer who isn’t writing” (p. 7) – e como ler as palavras dos outros (de Patrick Modiano, Simone Weil e tantos outros que vai nomeando) a ajudam a reencontrar-se e à sua relação com a escrita – “Inevitably somewhere midsentence, I find myself reaching for my pen”.
Seguimo-la em Paris, na Primavera de 1969, para onde nos procura transportar através, sobretudo, de paisagens e sensações, à medida que descreve os ambientes que percorre, com os quais se cruza ou que imagina a partir das associações que provocam em si mesma. As coisas que ouve, que vê, que prova, de que se lembra, tudo é combustível. “The interior of our imaginations glowed, as we walked back and forth before these places synonymous with poets. Just to be near where they written, sparred and slept” (p. 11).
A sua maior inspiração é – porventura temos aqui, afinal, um sinal acerca da importância da experiência real feminina – uma mulher, que redescobre graças a uma monografia esquecida em cima da sua mesinha de cabeceira nova-iorquina: Simone Weil (1909-1943), escritora, mística e filósofa francesa, que não só se tornou operária na linha de montagem de carros da Renault para escrever sobre o quotidiano dentro das fábricas, como lutou pela causa republicana na Guerra Civil Espanhola e fez parte da Resistência Francesa em Londres durante a Segunda Guerra Mundial.
É precisamente Simone que a acompanha, ainda que figurativamente, nas viagens de comboio onde aproveita para escrever o conto que constitui o núcleo central deste livro, emprestando-lhe, assim, o nome, e que começa a escrever depois de encontrar em Sète, no Sul de França, uma lápide com a palavra “Devouement” – “Drawn to yet an older headstone, I note the word DEVOUEMENT carved diagonal on the border. I ask Alain what it means. – Devotion, he answers, smiling” (p. 19). Mas essa palavra aparece ainda antes na vida de Smith, quando em sonhos o rosto de Simone Weil se mistura com o de uma jovem patinadora de gelo russa.
“In my sleep genius combines, regenerates. Simone’s determined heart-shaped face merges with the face of the young Russian figure skater. Dark cropped hair, dark eyes penetrating darker skies. I climb the side of a volcano carved from ice, heat drawn from the well of devotion that is the female heart” (p. 12), escreve Patti Smith. A partir daí, a autora vai desvendando, pouco a pouco, o impulso inicial da escrita, evocando ícones literários, visitando as campas dos seus autores favoritos (inclusive a de Weil, em Ashford, Inglaterra) e encontrando ‘sinais’ em lugares improváveis.
A sua mente é, então, uma espécie de arquivo a que recorre na hora de se sentar e escrever. Um espaço onde caminha tanto quanto cá fora, onde as viagens que fez, e durante as quais foi guardando referências e inspirações, convergem, para, no momento certo, se servir delas.
DEBATE NA COMUNIDADE
Se ainda não te juntaste ao nosso grupo de WhatsApp, é lá que temos estado a discutir esta segunda leitura conjunta.
“Achei os primeiros capítulos muito irritantes – parecia aquela altura em que, nos romances de gaja, não se podia ler uma cena sem ser atacada por marcas (e, indirectamente, preços), do tipo “Carrie não conseguiu conter a emoção quando Alain despiu as cuecas Tom Ford, de seda orgânica, compradas na Nordstrom”. Só que neste caso, com intelectuais. “Comi os cereais e lembrei-me de um poema de Rimbaud e de como ele tinha apanhado o 722 para ir visitar Rilke a Santa Maria da Feira”. Mas depois gostei do momento em que um terço daquelas inspirações se juntaram de forma significante. Era só deixar de fora as outras, fazer como o senhor da Galimard, que tinha medo de parecer presunçoso. Também gostei da ideia de Jesus Cristo não sonhar e da frase sobre o sono dos velhos, apesar de ser um bocadinho de ageism entranhado.” – Rita Dantas
“Fiquei com a sensação de que este livro é menos uma história e mais um registo do que acontece antes de uma história nascer. Não há propriamente enredo, é mais a Patti Smith a andar por cidades, a lembrar-se de coisas, a observar detalhes pequenos e a deixar tudo isso acumular até, sem grande aviso, começar a escrever. No início, parece que ela anda meio perdida: vê o trailer do filme, pensa em Simone Weil, lê Modiano, viaja, bebe café, vai a entrevistas. Nada de muito dramático. Mas depois percebe-se que tudo isso estava a preparar qualquer coisa. Em Sète, senta-se num banco e começa a escrever quase sem pensar. E aí faz sentido: o livro mostra como a escrita nasce dessas coisas soltas, imagens, memórias, encontros, até coisas banais como um prato de ovos ou uma rua qualquer. Gostei muito da forma como ela fala das cidades, sobretudo Paris. Parece que anda pelas ruas como quem lê um livro. Há sempre fantasmas por perto, Camus, Nerval, Valéry, Simone Weil, mas sem ser pesado, são mais presenças silenciosas. E a parte em que ela vai procurar o túmulo da Simone Weil é talvez a mais tocante, porque é simples, meio melancólica, e muito honesta. No fim, o que mais me ficou foi isto: ela própria diz que consegue explicar como escreveu o texto, mas não sabe porquê. E isso parece ser o ponto. A escrita aparece como uma coisa meio misteriosa, que se faz com tudo o que vamos vivendo sem percebermos. Comparando rapidamente com os outros dois livros: a Annie Ernaux é muito mais directa e racional, quer perceber e explicar tudo com clareza. A Ferrante é mais filosófica, intensa e tensa, fala muito do conflito interior de escrever. A Patti Smith é mais solta e escreve como quem anda, sem grande plano, deixando as coisas acontecerem. Achei um livro calmo, bonito e muito sensorial. Não é para quem quer histórias, é para quem gosta de entrar no ritmo de alguém a pensar e a observar o mundo devagar. É daqueles que se lê mais pelo ambiente do que pelo que acontece.” – Pagomes
“Até agora, é um livro cheio de referências e de passados, de história, de memórias, de legado. Muito Ransclaw. Super descritivo. Journaling. É bem a cena americana de dar valor à história. E os franceses gostam disso. Mas sobre como funciona o mente, nicles batatóide... São a própria escrita e descrições dela uma maneira de falar sobre como a mente funciona? Um meta comentário? Acho que me importei menos de ler este capítulo porque fala de Paris. Talvez lendo agora o “Devotion” este capítulo faça mais sentido. Definitivamente é uma mudança de registo muito grande em relação às outras autoras. Escreveu muito pouco sobre a escrita em si, pareceu-me.” – Palavras do Mestre André
LEITURAS EXTRA
Life’s Work: An Interview with Patti Smith, por Alison Beard (Harvard Business Review);
Patti Smith on the One Desire That Lasts Forever, por Ezra Klein (The New York Times);
Doing the work: a conversation with Patti Smith, por Alice Blackhurst (Kings Review);
Escrever é difícil? Para Patti Smith, é como “domar um potro teimoso”, por Bárbara Reis (Público);
As utopias de Simone Weil, de Paulo Roberto Pires (Quatro Cinco Um).
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É verdade que há mais mulheres do que homens no clube (não temos ainda pessoas não-binárias ou que se identifiquem de outra forma), mas temos homens bastante activos, como o Pagomes, o João Azevedo e o Palavras do Mestre André, por exemplo.




